sexta-feira, 29 de dezembro de 2017

O rebusco!...

Não tenho dúvidas que, por mais apedeuta que seja, qualquer pessoa conhecerá, não só a palavra, como também o significado de rebusco, nomeadamente no meio rural. Atrevo-me, até, a dizer que, em tempos não muito distantes, o rebusco era uma tradição instituída que, os mais pobres, desfavorecidos, ou pessoas que tinham tempo e faziam pela vida, praticavam com bastante regularidade.
Ir ao rebusco era, simplesmente, apanhar os restos que ficavam após as colheitas agrícolas, da azeitona, das batatas, das castanhas, das vindimas, etc. Nos meus tempos de criança, havia famílias cuja sobrevivência dependia, em boa parte, da prática do rebusco. Mesmo até no que toca à recolha de lenha para a lareira, recordo-me, por exemplo, de ver pessoas a extraírem dos troncos junto às raízes das árvores, que ficaram após os cortes, alguns cavacos para a lareira. Pouco era desperdiçado, pelo que quase nada era desaproveitado, sustentando um positivo resultado.
Nesta perspetiva dou, por vezes, comigo a pensar o quanto a vida mudou, como tanta coisa se alterou e como tanta necessidade nos desassombrou. Ou será que também o comodismo imperou?!... A ideia de aproveitar, arrecadar ou poupar, parece ser, nos tempos que correm, olhada de outra forma, com diferente tranquilidade.
Quando, há dias, andei à azeitona, observando o contexto como agora se procede a esta colheita, vieram-me à lembrança os tempos em que o rebusco era uma tarefa exercida com entrega e afinco. Isto porque, ao contrário do que atualmente acontece, sobretudo decorrente da mecanização, antigamente, a faina da azeitona implicava não deixar nenhuma, que se visse, por recolher, quer da oliveira, quer do chão, mesmo quando estava gelado, ou encharcado.
Que satisfação evidenciariam as pessoas que andavam ao rebusco se, nesses tempos de “penúria”, encontrassem, nos olivais, a quantidade de azeitona que hoje fica por lá. É que havia famílias que faziam azeite para o consumo próprio, só com a azeitona que apanhavam ao rebusco, chegando, até, a vender alguma.
Obviamente que não tenho nenhuma saudade desses tempos, até porque eram penosos e de grande sacrifício, mesmo para quem não tinha necessidade de ir ao rebusco. Todavia, também entendo que, ainda hoje, o rebusco, poderia, muito bem, ser “ressuscitado” e exercitado por pessoas ou famílias com dificuldades no domínio da ocupação laboral e económica, aproveitando o tempo e os recursos de forma produtiva. Estou convencido que, se tivesse necessidade, não teria qualquer problema em ir ao rebusco. Seria uma forma útil de valorizar o tempo livre, a mim próprio e o conceito de vida na essência da independência, dignificação do trabalho e aproveitamento de recursos naturais disponíveis.  
Tendo em conta a implementação da mecanização na vareja e apanha da azeitona, ficando nos olivais muitas toneladas de azeitona sem qualquer aproveitamento, não tenho dúvidas que o rebusco seria uma tarefa a ter em conta por quem tem necessidades ao nível económico e alimentar, e revela capacidades físicas para laborar e muita disponibilidade de tempo para ocupar.


Nuno Pires
in:mdb.pt

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