sábado, 23 de dezembro de 2017

NATAL EM FAMÍLIA

Por: Manuel Amaro Mendonça
(colaborador do "Memórias...e outras coisas..."
Afonso deu um último arranjo à toalha de mesa que estava um pouco encorrilhada. As crianças, Maria e Pedro de doze e nove anos respetivamente, riam e empurravam-se em tentativas simuladas para derrubar o outro da cadeira. Ele deitou um olhar em volta; a luz que inundava a sala espaçosa, a árvore decorada com cores vivas e brilhantes, os presentes por baixo. Tudo estava a regressar ao normal. Sim, tudo iria ficar bem.
- Podes sentar-te, “môrzito”. - A sua esposa, Francisca, nunca perdera o hábito de o tratar por aquele apelido carinhoso. E ali estava ela, com a travessa das batatas cozidas com bacalhau, tão típicas da época. Era uma tradição que ele detestava, mas suportava.
Sentou-se, compôs os pratos, moveu-os uns centímetros para um lado ou para o outro, nervosamente. Compôs os talheres em cima dos guardanapos enquanto admoestava as crianças:
- Vá, meninos, comportem-se agora. Vamos comer, senão, ainda acabam por magoar-se.
- Sim, papá!!! - Gritou Maria com a voz propositadamente esganiçada, como ela gostava de fazer.
- Maria! - Avisou Francisca. - Então, que é isso? Comporte-se, menina!
- Sim, papá!!!! - Gritou Pedro, imitando a irmã.
- Então?!? - A voz forte do homem fez-se sentir, num ralho carinhoso. - Vamos sentar quietos e fazer o jantar de Natal como deve de ser ou não?
- Pai. - O tom de voz de Maria mudou radicalmente para a de criança mimada. - Posso ver o que o Pai Natal me trouxe, antes de jantar?
- Eu também quero!!! - Exclamou Pedro.
- Não. Ninguém vai ver prendas antes de acabar de jantar. - Determinou Afonso.
- Primeiro vamos todos comer como deve de ser. Vamos portar-nos muito bem e só depois veremos as prendas. - Brincou Francisca, compondo o guardanapo à volta do pescoço de Pedro. - O Pai Natal disse que só se pode abrir depois de jantar, senão para o ano não traz nada e põe o nosso nome na lista dos mal comportados.
- Eu não sou mal comportado, pois não mãe? - Quis saber Pedro.
- Não, meu querido filho, claro que não, és um menino muito bem comportado. Tu e a tua irmã são as maiores prendas que Deus nos poderia ter trazido.
- Mãe! - Exclamou Maria. - Se tu já tens “estas prendas”, eu posso ficar com que o Pai Natal trouxe para ti?
Os pais soltaram uma gargalhada quase em coro.
- Não podes querer tudo para ti. - Afonso passou, carinhosamente, a mão pela cabeça da filha. - Este ano temos prendas para todos.
A refeição correu de forma pacífica e era visível, no rosto agradavelmente corado de Francisca, que estava muito feliz. Conseguiram conversar de forma mais ou menos amena, envolvendo as crianças o mais possível, falando da escola e dos professoras, das peripécias do recreio e dos colegas. Cada vez que cruzavam olhares, milhares de palavras eram passadas de um para o outro sem qualquer som. Havia muita conversa para pôr em dia.
Assim que acabaram de jantar, foi um furacão que varreu a área onde estavam os presentes. Num instante, todo o chão da sala estava cheio de pequenos bocados de papeis. Maria sentou-se no chão, ao pé do sofá, a brincar com o kit de maquilhagem e a enorme boneca que a deixou felicíssima. Pedro estava deitado no chão da sala a brincar com a garagem com vários piso cheios de automóveis que ele havia pedido ao Pai Natal mais do que uma vez.
Afonso e Francisca, recostados e enlaçados, no sofá, apreciavam as brincadeiras da sua prole.
- Já não sabia o que era um Natal em família... mas este ano foi todo diferente. - Ele comentou pensativamente enquanto ligava a TV com o controlo remoto.
- Já há mais de quatro anos que não estavas disponível nesta altura. - Francisca confirmou. - O teu trabalho, como enviado do jornal no Alto Comissariado para os Refugiados, estava a afastar-te muito de nós.
Como que a propósito, na televisão, estavam a passar imagens da chegada de mais umas centenas de emigrantes africanos às praias italianas. As cenas de dor, crianças e adultos desesperados, o resgatar dos corpos do mar, a chuva intensa que caía, eram imagens dolorosas.
- Estes pobres diabos vêm da fome e da guerra para a fome e indiferença. - Afonso tinha lágrimas nos olhos.
- Antes a indiferença que a guerra! - Afirmou Francisca. - E não somos assim tão indiferentes, estamos a fazer mais por eles, que são de outros países, do que às vezes pelos nossos. Também há fome por cá. Graças a Deus não há guerras.
- Concordo de certa forma mas... é uma dor de alma...
- Mas já agora, nunca explicaste completamente o que se passou, para deixares a tua função no Alto Comissariado.
- Oh, isso foi... um pequeno desentendimento com um elemento do staff do Guterres. Mas já passou, “convidaram” o jornal a tirar-me daquelas funções, mas eu não me importei muito, já estava farto. O cretino que causou esta confusão toda também não teve muita sorte, ouvi dizer que foi assassinado num assalto, lá na Itália, à saída de um bar. Nem conseguiu ter a felicidade de me ver sair do país, diz-se que “Cá se fazem e cá se pagam”.
- Que horror. Não devias ficar contente com a morte de alguém, ainda que nos tenha feito mal. - Francisca soergueu-se para o olhar nos olhos.
- Não estou contente nem triste. O tipo era-me completamente indiferente, só achei engraçada a coincidência... “Deus não dorme!” - Piscou-lhe um olho e beijou-lhe rapidamente os lábios.
- Pelo menos assim estás mais próximo de nós, não tens todas aquelas viagens para fazer, apenas umas noitadas por entre outras.
- Sim, estou feliz por regressar... retomar o meu lugar na redação do jornal, voltar a escrever artigos mais genéricos.
Na televisão passava agora a noticia de mais um homicídio na cidade. Já se contavam sete homicídios, no espaço de poucos meses, ligados a um assassino em série a que chamavam “A Sombra”. A polícia, desesperada, não conseguia pistas para o apanhar.
- Terrível, este assassino. - Comentou Francisca. - Dizem que agride as vítimas com algo pesado e que, depois de estarem sem sentidos, faz-lhes um corte na jugular e deixa-as a morrer.
- Então até não é muito mau. - Afonso deu um sorriso trocista. - A maior parte deles nem deve perceber o que lhes aconteceu.
- Parvo! - Ela exclamou. - Isso é coisa que se diga?
- A sério! - Ele continuou. - Podia até tortura-las, tirar-lhe bocados, como fazem os grandes assassinos que vemos nos filmes, sei lá eu. Mas põe-nas a dormir e depois manda-as à vida... ou à morte, mais propriamente.
A notícia continuava e o jornalista fazia uma relação das vítimas, que foram assassinadas nas próprias casas, e dos produtos roubados. Eram, na sua maioria, mulheres com posses, que viviam sozinhas, ou não tinham companheiro certo. Os roubos eram normalmente dinheiro e jóias, além de algumas obras de arte esporádicas. O assassino sempre fora cuidadoso em deixar de lado peças famosas, ou demasiado valiosas, que pudessem ser identificadas. Mas desta vez cometera um erro; uma das peças era muito valiosa e tinha, inclusivamente, seguro próprio. No ecrã foi exibida a fotografia de um magnífico pingente de ouro e pedras preciosas e o jornalista pediu, a quem visse aquela peça, participasse imediatamente às autoridades. A família da vítima oferecia uma choruda recompensa, assim como a companhia de seguros.
- Tá tramado! - Disse Afonso pensativamente.
- Parece impossível que consiga andar por aí alguém a matar pessoas e a polícia não consiga fazer nada. - Francisca estava apreensiva.
- Não é fácil. Estes criminosos estão cada vez mais mais evoluídos. Têm acesso a informações e tecnologias como nunca tiveram antes. Por acaso, até acho que vou abordar esse tema na minha próxima crónica de opinião no jornal. Será “Polícia versus criminosos, estaremos a perder a corrida?”
- Oh. A tua crónica? Já ta deram outra vez?
- Não te disse que tenho estado a reocupar o meu lugar na redação? Eles têm que reconhecer o meu valor.
- Mas não tinham dado a crónica ao... àquele tipo horrível, com o capachinho ruivo e os óculos grossos... o Norberto, não era?
- Sim, era esse, mas eu avisei logo o meu chefe que o Norberto não era de confiança. Tinha aparecido há coisa de um ano e tal, sem ninguém saber de onde, armou para lá umas confusões na redação, “calcou cabeças” e “subiu às costas” de quem pôde para conseguir o que queria. Agora, penso que já deve ter atingido os objetivos dele, desapareceu há umas semanas... não atende o telemóvel, a casa alugada está vazia e com a renda paga até ao fim do mês.
- Por isso devolveram-te a crónica.
- E um bónus, que eu reclamei logo. - Afonso soltou uma gargalhada. - Caiu muito bem agora nesta altura do Natal.
Beijaram-se ternamente e começaram a acariciar-se.
- Não achas que são horas das crianças irem para a cama? - Ele perguntou.
- Penso que sim. - O sorriso dela dizia tudo. - Meninos, vamos dormir.
- Oooohhh, mãe!!!! - As crianças gemeram em uníssono.
- Nada de confusões! - Insistiu ela erguendo-se e batendo as palmas.
Afonso deixou-se ficar um pouco, com um sorriso nos lábios, olhando a sua adorada família. Por fim ergueu-se também e gritou para a área dos quartos:
- Vou à cave ver a caldeira e já vou ter contigo ao quarto.
Era realmente um homem afortunado, com uma família bela e feliz como aquela... que mais poderia desejar? Acendeu a luz da escadaria da cave e desceu, pensativamente.
Na ampla divisão, dirigiu-se a um armário, que abriu com uma chave que trazia no bolso. Pegou uma mochila preta do interior e caminhou para a porta da caldeira onde ardia um lume forte, visível através do vidro.
Abriu a portinhola e, de dentro da mochila, tirou uma cabeleira ruiva e uns óculos com armações de massa, que olhou por uns segundos com um sorriso nos lábios. Atirou os objetos para o fogo com umas palavras de despedida:
- Adeus Norberto! Espero que encontres um jornal onde escrever lá no Diabo que te carregue.
Mais uns segundos a olhar para o fundo da mochila e tirou um fantástico pingente em ouro e pedras preciosas que fez rodar em frente dos olhos enquanto comentava: 
- É uma pena... ias render bom dinheiro, se as outras renderam o que renderam, tu ias garantir umas boas férias com a família..."
Atirou a peça para o lume enquanto comentava para consigo:
- Sete homicídios?!? Palermas, já passei os vinte.
Atirou também a mochila para o interior da caldeira, fechou a porta e abandonou a divisão, a caminho da cama onde a sua adorada mulher o aguardava. 

Manuel Amaro Mendonça nasceu em Janeiro de 1965, na cidade de São Mamede de Infesta, concelho de Matosinhos, a "Terra de Horizonte e Mar".
É autor dos livros "Terras de Xisto e Outras Histórias" (Agosto 2015), "Lágrimas no Rio" (Abril 2016) e "Daqueles Além Marão" (Abril 2017), todos editados pela CreateSpace e distribuídos pela Amazon.
Ganhou um 1º e um 3º prémio em dois concursos de escrita e os seus textos já foram seleccionados para mais de uma dezena de antologias de contos, de diversas editoras.
Outros trabalhos estão em projeto e saírão em breve, mantenha-se atento às novidades AQUI.

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