quarta-feira, 27 de dezembro de 2017

A ilusão desiludida

Eu sabia quão nítida e riscante era a realidade, no entanto, sabia-me bem, dava-me aprazimento vogar na ilusão sempre que podia. Não era um nefelibata, era um ilusionista de um só único espectador, eu, qual suicida entusiasta (ainda não tinha lido o livro) por ganhar momentos de felicidade. Um de tais suplementos nutricionais da ânima era o de namorar sem a namorada o saber. Tal e qual!
Ora eu namorava uma menina a viver num Lar da Mocidade, a adolescente seria mais nova um ou dois anos, via envergando o traje (farda) a caminho e na vinda da Igreja de Santa Clara às quartas, sábados e domingos, olhava-a, contemplava-a, fixava-lhe o corpo, com tanto apreço como o Giordano Bruno pelos corpos celestes. 
Tudo deslizava na minha mente até ao dia primeiro de Dezembro de determinado ano. O feriado permitia às meninas do Lar mostrarem-se fora do circuito escolar e das preces à Santa de Assis, a Santa figura tutelar da Ordem franciscana das Clarissas, daí a razão de andar, estar alvoroçado ante a certeza de vislumbrar a amada, não em qualquer modelo de platonismo serôdio ou evidente, intimista apenas.
Antes da missa das dez já eu tinha transposto a soleira da porta, sapatos polidos a cuspo e graxa, calças vincadas, camisa lavada, casaco escovado, samarra liberta de vestígios de migalhas e ala que se faz tarde à espera tão ardente quanto Dante num assomo de febre amorosa.
Ouvia o arroz pró pote da banda do Patronato, assisti à execução tremelicante de passos desprovidos de marcialidade repisados bombeiros comandados pelo Sr. João Baptista Martins, vi passar a hoste bufa dos dignitários da Legião num arremedo verde das camisas cor de caca dos nazis, quando surgiu o rancho das moças de blusa verde, saia castanha e solidéu do mesmo tecido e cor, logo que a vi cometi o erro de segredar ao meu primo Tó – aquela é a minha namora – lesto respondeu-me ser a visada de outro seu primo. Fiquei varado, insisti na minha versão fantasiosa, teimei, o malogrado meu primo também teimou. Escapuli-me.
Regressei combalido a casa, não me interessaram as ofertas de mocas utilizadas no decurso do cortejo impulsionado pelos estudantes trajados a preceito – capa e batina e adereços – tal qual como na Lusa-Atenas, estava derrotado. No entanto, não ia desperdiçar a possibilidade de a rever engolfado no cortejo que terminava junto da casa do Dr. Adrião Amado, o qual após os eferreás tinha o cuidado de vir à janela saudar a Academia.
Os espanhóis dizem não existirem amores sem ciúmes, porém faltava-me o sujeito a conceder verdade à pulsão ciumenta, nem de frente, nem de perfil, sim uma extraordinária ilusão desiludida pela veemência do meu malogrado primo. Agora, troço da puerilidade, naquela tarde friorenta dedicada a dar vitoriar os Restauradores, o frio forte da traição inverosímil arrepiava-me.
Muitos anos mais tarde voltei a ver a Menina no corpo de mulher casada e mãe de filhos. Estava na mercearia do Sr. Victor Abreu. Sem querer saber soube que nunca teve falas ou namoro com o fautor do meu desgosto. Notoriamente o Tó quis-me azucrinar o coração, não os ouvidos. Perdoei-lhe a maldade.



Armando Fernandes
in:mdb.pt

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