domingo, 31 de dezembro de 2017

... quase poema... ou do bom ano de 2018

Por: Fernando Calado
(colaborador do "Memórias...e outras coisas...")
Se houvesse um tempo, o ano de 2017 estaria mesmo à beira da morte, estranhamente solitário, numa agonia dolorosa, sentindo a ingratidão da humanidade que ruidosamente celebra o nascimento do novo ano de 2018. O ano de 2018 ainda é um tempo sem história, sem ontem, só um imenso deserto, ainda sem chegadas nem partidas. Um ano sem emoções.
Mas o tempo é esta continuidade imensa... somente marcado pelo sol que se levanta magnífico, brilhante, vestido de lavado para ir beijar as flores e à tarde regressa feliz, do campo, para sua casa. Uma rotina sem ontem, nem amanhã, sem relógios, sem calendários, sem dias, sem meses, sem anos, sem séculos…sem pressa, até quando o sol se canse, apague o lume e vá descansar.
… e o Universo se cala e aguarda no tempo sem tempo, o infinito, o renascer de novo das cinzas do sol, dos planetas e tudo recomeça… e para sempre.
… mas na minha humanidade regresso ao ano de 2017 para agradecer, virado para o sol, para o magnífico sol, o privilégio de mais um ano. O meu tempo não se marca pelo calendário da mesquinhez política, marca-se pelo tempo das rosas, das maçãs, dos morangos, da horta em parto de novidade… o meu tempo marca-se pela chegada, pela fonte onde bebemos água e era tão fresca… pelos olhos das crianças marcando o futuro, por tanta gente bonita que acredita na vida e encontrei à beira dos meus livros… à beira da surpresa, por tudo … o ano de 2017 foi um bom ano!
… eu sei… os desempregados perdidos nas praças infindas do desespero, os jovens sem futuro à beira da emigração… da partida e ficam os sonhos, eu sei das falências e duma vida que parou, sem horizontes… eu sei dos doentes que roem as unhas nas longas esperas das urgências… eu sei… eu sei dos encontros e desencontros… eu sei!
… para todos as minhas lágrimas fraternas e humanas… Um dia… nascerá uma flor e será verde… e sairemos todos à rua agarrando a esperança… nem que seja a última esperança!
… desejo a todas as minhas amigas e amigos um bom ano de 2018!


Fernando Calado nasceu em 1951, em Milhão, Bragança. É licenciado em Filosofia pela Universidade do Porto e foi professor de Filosofia na Escola Secundária Abade de Baçal em Bragança. Curriculares do doutoramento na Universidade de Valladolid. Foi ainda professor na Escola Superior de Saúde de Bragança e no Instituto Jean Piaget de Macedo de Cavaleiros. Exerceu os cargos de Delegado dos Assuntos Consulares, Coordenador do Centro da Área Educativa e de Diretor do Centro de Formação Profissional do IEFP em Bragança. 

Publicou com assiduidade artigos de opinião e literários em vários Jornais. Foi diretor da revista cultural e etnográfica “Amigos de Bragança”. 

Um Apelo ao Gerente das Frutas Ferreira

Invariavelmente, os seus Colaboradores depositam cartão e plástico no lixo doméstico.
Bem sei que, ainda, ninguém é obrigado a separar os lixos.
No entanto faz-me alguma confusão, até indignação, que os seus colaboradores tenham a 20 metros um ecoponto e que "prefiram" andar mais outros 20 metros para depositarem cartão e plástico num contentor de lixos domésticos.
A isso...chama-se preguiça e falta de sensibilidade.
Fale lá com o seu pessoal para não ter que se deslocar ao seu estabelecimento uma turma do 1º ano do Ensino Básico a sensibilizá-lo para a "matéria".
Contentor onde depositam cartão, papel e plástico.
20 metros a seguir ao ecoponto.

Ausências (Ficção)

Por: Fernando Calado
(colaborador do "Memórias...e outras coisas...")
A noite estava quente, mas os dois velhos gostavam de ter o lume acesso naquela moleza de quem faz horas para se ir deitar.
- Tivemos uma vida boa!
Dizia o velho para a sua mulher, sentada ao canto do lume, com aquele ar meigo de quem amou até ao infinito e gastou os olhos de tanto olhar para o seu homem.
E a conversa arrastava-se num dizer por dizer, como se as palavras tivessem a magia de adoçar a vida cheia de recordações, de alegrias e de tristezas.
- Tu deves ouvir sempre o que eu te digo, mulher, porque eu tenho duas escolas, a escola primária e a escola da vida...Tu só tens a escola da vida!
Então a velha queixava-se de não saber ler as cartas e os postais que se perdem caídos pelos quatro cantos da casa.
- Tens que ter resignação mulher, como eu que já quase não vejo nada!
- Pois é, coitadinho, já quase não vês!
- Chega de conversa, por hoje...só eu é que devo falar das minhas desgraças!
- Pronto, ficas logo áspero...
Diz a velha sem rancor, na maior serenidade.
- Então quem telefonou hoje?!
Pergunta o velho...sabendo ele que os filhos telefonam sempre ao anoitecer, mas pergunta, naquele alegria íntima de ouvir a mulher dizer o nome dos filhos.
- O nosso João continua na política?!
Perguntou o velho...escondendo a vaidade, pois ele era um amante da democracia, censurando os invejosos que hão-de falar sempre mal de quem trabalha pela educação, pela saúde e pelos velhos.
- Aquele rapaz...com o cursinho dele não precisava nada destas coisas da política...que só trazem desgostos e inimizades...Eu bem o avisei!
Pois é, a mãe bem o tinha avisado que não se metesse na política, mas quê o rapaz trazia no sangue aquele fulgor do seu avô, velho republicano, um homem honrado e são como um pêro, que combateu o Franco e ajudou, a vida toda, os espanhóis que se refugiavam no sossego do Nordeste Transmontano fugindo ao negrume da Guerra Civil.
E a mãe morria de tristeza por causa daquele filho...tinha tantos inimigos o seu menino...Antes de se meter nestas coisas da política, toda a gente lhe queria bem, regressava a casa cedo vindo do seu emprego, saía com a sua namorada e tinha uma vida tão boa...Agora, é este desassossego, esta corrida constante para o Partido, para as reuniões, é este medo desenhado no seu rosto e que a mãe conhece desde pequenino.
- Mas também quem fala mal do nosso rapaz?
Dizia o velho que sem a resposta da sua velha, respondia ele:
- Um, é um vigarista refinado que pára ali pela tasca da viela...fala mal de meio mundo...ri-se muito...tem muita laracha, mas se um homem não acautela a carteira está bem arranjado...Gente de respeito...não conheço nenhum!
Mas a mãe não se resignava e achava que o seu homem também estava muito triste e havia de morrer com aquele desgosto de ver o filho a ser enxovalhado por gente que não vale duas coroas.
- O nosso rapaz anda meio doente!
Teimava a mãe, como quem sabe que a política traz consigo a inveja, o ódio e o prenúncio de todos os males.
- O nosso rapaz é um bom homem...
Dizia o velho reconfortado.
- Pois é...Só é mau para ele...
Dizia a mãe enquanto afagava um sorriso longínquo, lembrando-se de tanta gente a quem o filho ajudou a conseguir emprego, da alegria de meio mundo que encontram no seu filho a disponibilidade de quem está ao serviço dos outros e faz política discretamente...sem se ver...sem traições...nem arranjos calculados na penumbra da vilania.
- Vamos à cama!
Diz o velho como quem cumpriu um dever de esclarecer a sua velha das coisas da vida, pois ele tinha obrigação de o fazer porque num tempo antiquíssimo tinha frequentado a escola primária...e ao longo da vida, fez a magnífica escola de conhecer, primorosamente, as fragilidade da natureza humana.


Fernando Calado nasceu em 1951, em Milhão, Bragança. É licenciado em Filosofia pela Universidade do Porto e foi professor de Filosofia na Escola Secundária Abade de Baçal em Bragança. Curriculares do doutoramento na Universidade de Valladolid. Foi ainda professor na Escola Superior de Saúde de Bragança e no Instituto Jean Piaget de Macedo de Cavaleiros. Exerceu os cargos de Delegado dos Assuntos Consulares, Coordenador do Centro da Área Educativa e de Diretor do Centro de Formação Profissional do IEFP em Bragança. 
Publicou com assiduidade artigos de opinião e literários em vários Jornais. Foi diretor da revista cultural e etnográfica “Amigos de Bragança”. 

Música, animação e convívio marcaram a Gala de Natal da Associação Juvenil dos Artistas Macedenses

Torre de Moncorvo promoveu o tradicional convívio de natal para todos os seniores das IPSS'S do concelho

V Encontro da Máscara

Tempo de espera nas urgências do hospital de Mirandela ultrapassou as seis horas

As urgências do hospital de Mirandela também estiveram lotadas no passado sábado.
A situação, de acordo com os utentes, tem sido comum nos últimos dias.

sábado, 30 de dezembro de 2017

O PERIGO DA FAMILIARIDADE EXCESSIVA

Por: Humberto Pinho da Silva
(colaborador do "Memórias...e outras coisas..."
Estando certa tarde de domingo, a conversar com amigo, este, a determinado momento, saiu-se com esta: “ Sempre que me torno amigo de alguém, perco, para ele, metade do valor. Passa a duvidar de tudo, que: penso, digo e afirmo.”
Opinião, que apenas concordo, em parte, fez-me lembrar o que disse a grande fadista Amália Rodrigues, em declaração ao semanário “ SETE” (01-11-83): “ Agora leio pouco, porque, ao conhecer os autores das obras, tinha muitas desilusões…”
O escritor, o poeta, o cronista, perde encanto, até respeito, logo que se torna amigo do leitor.
A familiaridade retira valor a quem escreve.
Para os que convivem, diariamente, com ele, e partilham os mesmos utensílios, o intelectual, não passa de ser excêntrico; um preguiçoso. (Como dizia criada de Herculano, por o ver sempre a ler e a escrever.) Um desadaptado incorrigível.
Se há, por vezes, nos familiares: orgulho e vaidade, por se verem aparentados com o autor do livro, que se encontra no escaparate do livreiro, existe, igualmente, a reprovação: por passar horas a fio, de pena na mão, a ler e a rebuscar apontamentos, entre montes de papéis, em lugar de conviver com a família e amigos, à mesa da cafetaria.
Amália Rodrigues afirmava várias vezes: que ao ler as letras das canções ficava admirada com o talento do autor, e fantasiava-o, esbelto e cortês.
Levada pela curiosidade, procurava conhecê-lo pessoalmente, mas na maioria das vezes, sofria grandes desilusões, até desgostos profundos.
No memorial de Clarissa – personagem querida de Erico Veríssimo, – em “ Música ao Longe”, esta diz: que sofreu séria desilusão, ao verificar que o famoso poeta Paulo Madrigal, que imaginara elegante e gentil, não passava de pobre diabo, caixeiro-viajante, de indesejáveis tiques nervosos.
Ao invés da lei da perspectiva, o intelectual, torna-se grande, quando está longe. O escritor parece-nos mais talentoso, quando nos é inacessível, e vive em longe paragem.
O mesmo acontece às instituições e Universidades.
Como o crente, que percorre léguas, em demanda de santuário mariano, para pedir a graça, que necessita (esquecendo que Maria tanto está lá, como na sua paróquia,) também, alguns licenciados, procuram obter mestrado e doutoramento em longínquas Universidades, olvidando, que, por vezes, os professores onde estudou, são mais competentes, e saberiam apreciar melhor a tese, do que aqueles.
Mas a distancia, a língua estranha, a fama, leva-os a pensar: graduando-se na sua Universidade, entre os que foram companheiros e professores, não tem o mesmo valor…
Infelizmente, a sociedade, também pensa assim:
Conheci jovem, que se formou numa Universidade portuguesa. Quando começou a procurar emprego, logo verificou, que os preferidos eram os candidatos graduados na América e Inglaterra.
Os selecionadores – em regra, não conhecem a Universidade, onde o candidato obteve o mestrado, – mas impressionam-se, ao verificar, que o certificado apresentado, está passado em inglês…
Bacoquice?! Certamente que sim; mas o que havemos de fazer?! O mundo é assim… e quem quer singrar, tem que obedecer às “ leis” que vigoram.

Humberto Pinho da Silva, nasceu em Vila Nova de Gaia, Portugal, a 13 de Novembro de 1944. Frequentou o liceu Alexandre Herculano e o ICP (actual, Instituto Superior de Contabilidade e Administração). Em 1964 publicou, no semanário diocesano de Bragança, o primeiro conto, apadrinhado pelo Prof. Doutor Videira Pires. Tem colaboração espalhada pela imprensa portuguesa, brasileira, alemã, argentina, canadiana e USA.Foi redactor do jornal: “Notícias de Gaia"” e actualmente é o responsável pelo blogue luso-brasileiro: " PAZ".

O museu de Luís Cangueiro é uma caixa de música gigante

Luís Cangueiro sonhou com um museu onde pudesse mostrar as mais de 600 peças de música mecânica que coleccionou ao longo de 30 anos. O sonho já se pode ver (e ouvir).
Entre cavalos e laranjeiras, há, na Quinta do Rei, uma caixa de música gigante. É um museu, fica em Palmela e tem 600 peças de música mecânica. Ali se reúnem grafonolas de diferentes formatos, campânulas de várias cores, fonógrafos raros e caixinhas de música invulgares. Uma colecção privada que nos dá a escutar sons que remetem para o passado. Límpidos ou roufenhos, deslumbram os mais novos e comovem os que nasceram antes.

No Museu de Música Mecânica, Luís Cangueiro, o coleccionador, diz-nos quem é: “Uma pessoa que nasceu numa aldeia de Miranda do Douro e fez o percurso natural como qualquer jovem. Estudou no liceu, foi para a universidade, foi para a tropa, deu aulas. Depois, começou a criar empresas de publicidade.” A vida correu-lhe bem.

Estudou Filologia Clássica. Nas suas palavras, “uma área um pouco estranha: é dar aulas de Latim, Grego e Literatura Portuguesa”. Bragança “era um bocadinho morto” e decidiu vir “cá para baixo”, conta. “Ainda bem, lá teria de me manter como professor e aqui tive oportunidade de criar riqueza, pelo menos para construir este museu.”

Dentro da caixa
Não sabe precisar quando é que a música entrou na sua vida, lembra-se de que sempre esteve presente, que a estudou e recorda os tempos em que, jovem, aprendeu a tocar acordeão. “Quando entrei na Faculdade de Letras de Coimbra, inscrevi-me logo no coral. Acompanhei sempre a música clássica e descobri mais tarde estas máquinas de música, que são o meu encanto.”

Mas o primeiro encontro com estes mecanismos sonoros aconteceu mais atrás no tempo, quando tinha sete ou oito anos e descobriu lá por casa uma caixa de música. “Eu não sabia o que era aquilo. Era uma peça em que se dava à manivela e aquilo mal tocava. Tocava muito mal.”

Resolveu, com a curiosidade própria de criança, abri-la e desmontá-la para ver como é que funcionava. Resultado: “Já não tive capacidade para voltar a montá-la. Aquela maldade ficou-me na memória. Não sei se isso também teria contribuído de alguma maneira para entrar neste campo”, questiona-se. E, com graça, conclui: “Vinguei-me. Comprei exactamente essa caixa de música, que agora tenho aqui. Não essa, mas uma igual e muitas do mesmo género (era uma Ariston de 1880 e tal).”

Música à manivela
A primeira peça que comprou para a colecção que agora partilha com os visitantes foi um gramofone, em 1987, não uma caixa de música. Luís Cangueiro explica: “A caixa de música propriamente dita é um instrumento mecânico diferente. O gramofone já exige uma gravação prévia, que toca os discos de 78 rotações por minuto.” E logo nos põe a escutar, nesse gramofone inicial à manivela, um disco dos anos 1930/40 de Júlia Barroso, “que ainda está muito presente e continua a ser nossa conhecida”. Achou mais apropriado do que nos dar a ouvir Frank Sinatra. Fez bem.

A colecção, que revela 250 anos de sons (do século XVIII até à década de 30 do séc. XX), foi sendo obtida em leilões de arte. “Eu já adquiria pintura, escultura e outros objectos de arte e apercebi-me de que havia caixas de música com sons completamente diferentes daqueles que estava habituado a escutar. Sons únicos. E comecei a descobrir um mundo novo nos instrumentos de música mecânica.”

Entrou então no circuito de antiquários, sobretudo no centro da Europa, que se dedicavam quase exclusivamente à venda destes mecanismos. “Peças que também existiam em Portugal, mas em pouco número. As peças com maior significado, mais importantes e raras, adquiri-as na Europa (sobretudo Suíça, França, Alemanha, Inglaterra) e Estados Unidos”, enumera.

Campânula como fachada
Quando chegou às 400 peças, entendeu que era importante dá-las a conhecer ao público. Queria criar um museu, mas que fosse na quinta da família, para a ter por perto. Depois de esperar “sete ou oito anos, dados os problemas burocráticos” (foi preciso realizar um plano de pormenor para obter autorização da câmara para construir um edifício maior do que o inicialmente previsto, que tinha apenas 180m2), conseguiu erguer o Museu de Música Mecânica.

O edifício foi imaginado por Manuel Marcelino, “apostei na juventude e este projecto já foi motivo de atenção de revistas internacionais de arquitectura, pelo menos em 14, de vários países da Europa e também nos EUA”, descreve com orgulho. E elogia o arquitecto: “Conseguiu realizar essa inserção de uma maneira notável, pensando ele que seria interessante mostrar o edifício como se fosse uma caixa de música gigante.”

Luís Cangueiro convida-nos a olhar para a fachada principal do museu e a identificar o “paralelismo com as chamadas ‘campânulas’ das caixas de música”.

O coleccionador define o museu em três vectores fundamentais: “A parte musical, a componente tecnológica e a questão sentimental.” No entanto, não descura os aspectos históricos e sociais: “Temos fotografias em que há um grupo de familiares e amigos em que o elemento principal, fulcral, é um fonógrafo ou um gramofone. Temos um álbum de família musical, em que há fotografias lindíssimas que nos mostram como é que se vestiam, como era a moda naquele tempo.”

Há peças destinadas a locais públicos, “onde as pessoas se divertiam e dançavam”, outras com jogos de um lado e grafonola de outro, “que se levava para piqueniques”. No museu podem encontrar-se postais que eram gravados e depois enviados por correio para serem escutados noutro gramofone.

Os tocadores de realejo dão-nos também um retrato da sociedade, eram homens que percorriam várias cidades da Europa, divertiam as pessoas e era daí que vinha o seu sustento. Muitas vezes tratava-se de ex-soldados que tinham ficado incapacitados.

“Temos uma caixa de música destinada às salas de espera das estações de caminho-de-ferro. Punham a moedinha e distraíam-se enquanto o comboio não chegava. E até havia umas bailarinas a dançar”, descreve Luís Cangueiro.

Lembra ainda que, até certa altura, só as elites tinham acesso a caixas de música. “A democratização chegou nos inícios do século XX, com a descoberta do fonógrafo e mais tarde do gramofone. Aí, sim. Lembro-me de no meu tempo, nos anos 50, dançarmos ao som de uma grafonola. Nos anos 30, 40 do século XX, praticamente em todas as aldeias já havia uma grafonola. Antes, não era para toda a gente.”

Descentralizar a cultura
Sobre o espanto que as pessoas manifestam pela localização do museu no meio rural, argumenta: “É um espaço que está muito próximo dos grandes meios, nomeadamente Lisboa, e está num ponto estratégico nos eixos norte-sul, tanto pela Ponte Vasco da Gama como pela 25 de Abril.”

Sabe que ali não terá tantos visitantes como se estivesse num centro urbano, mas diz achar muito importante “descentralizar a cultura” e dá o exemplo de países como a Suíça. Ainda assim, com pouco mais de um ano de abertura ao público, já recebeu cerca de 11 mil visitantes. Desde crianças “com um ano, que já interagem com as máquinas”, até visitantes com idades bem avançadas, “a mais velha tinha 97 anos”, conta, para concluir, “todos se sentem aqui muito bem”.

O facto de estar numa quinta permitiu-lhe ainda concretizar um dos seus objectivos iniciais, “criar um projecto global em que lazer e cultura tinham de estar de mãos dadas”. Como já ali tinha instalado um centro hípico, agora proporciona os chamados “Dias na Quinta”, em que as crianças até aos 15 anos visitam o museu, brincam no campo de jogos e experimentam andar a cavalo. Também acolhe festas de aniversário. 

Olhos arregalados
O PÚBLICO acompanhou um grupo de crianças do Colégio Valsassina, de Lisboa, na visita ao museu e testemunhou o interesse e deslumbramento que as peças causaram nos miúdos.

Depois de deixar os alunos contarem que tipo de colecções faziam — “todas as coisas esquisitas: pedras com formas estranhas, caroços”; “rolhas”; “moedas antigas do meu avô”; “minerais, conchas bonitas, búzios”; “chávenas de café, temos mais de 200” —, Andreia Dinis (coordenadora de comunicação do museu) mostra um cilindro metálico e informa que a primeira caixinha de música do mundo foi construída pelo relojoeiro Antoine Favre, que vivia em Genebra, Suíça.

“Construiu um cilindro ‘cheio de piquinhos’, onde gravou a música, e depois inventou um pente de lâminas vibrantes. O pente está sempre à frente do cilindro. Quando o cilindro começa a girar, vai levantar cada nota musical. E vai fazer assim a melodia.” O cilindro pode conter no máximo 12 melodias.

Há-de mostrar-lhes uma árvore de Natal que roda e entoa uma música da quadra, uma caixa com uma bailarina no topo que dança de forma “desengonçada”, “parece que voa”, um boneco que toca numas placas metálicas, “um xilofone”, e vários objectos do quotidiano, todos com música, claro. Desde uma lâmina de barbear ao tal álbum de fotografias musical que ao ser folheado activa o cilindro que esconde.

Também tiveram oportunidade de inserir moedas nalguns mecanismos e escolher as músicas a escutar. Olhos arregalados e expressões de espanto animaram as galerias do museu, onde há uma tentação enorme para mexer em tudo, mas que só se permite nalguns casos.

Biscoitos no fim da visita
O coleccionador diz ainda ter mais 200 peças em reserva, que irá substituindo à medida que puder. O museu conta com um centro de documentação, um auditório e uma galeria para exposições temporárias. No bar, vendem-se biscoitos de alfarroba e curcuma, feitos na quinta.

“No final das visitas, nós estamos aqui meia hora, uma hora a falar com as pessoas descontraidamente. As pessoas que entram aqui sentem-no como um museu de afectos”, diz e conta como, nas visitas que faz, “as pessoas começam a sentir pele de galinha, em muitas delas as lágrimas começam a cair-lhe dos olhos”.

Atribui esses sentimentos “a uma certa nostalgia por estarem a sentir, a ver e a ouvir as peças que desde há 250 anos passaram por gerações”. Por isso ou por muitos dos sons remeterem para a inocência infantil que ficou lá atrás.

Uma certeza o coleccionador tem: “Há uma paz interior que se consegue colher nesta quinta.” E está a falar verdade.

Rita Pimenta (texto) e Vera Moutinho (vídeo)
Jornal Público

Última Feira do Ano em Macedo de Cavaleiros

Distrito de Bragança irá contar com mais 65 camas

Das 500 camas que irão alargar a Rede Nacional de Cuidados Continuados Integrados, 65 virão para o distrito de Bragança. tendo 18 sido atribuídas à Unidade Local de Saúde do Nordeste.
De acordo com o despacho publicado hoje, dia 29 de dezembro, em Diário da República, sobre os novos contratos celebrados pelo Ministério da Saúde, a Rede Nacional de Cuidados Continuados Integrados vai ser alargada e dotada com mais 500 camas nas diferentes tipologias, das quais 289 destinam-se à região Norte. Só o distrito de Bragança irá contar com 65 destas camas, 18 das quais a serem atribuídas à Unidade Local de Saúde do Nordeste.

Esta medida surge no seguimento da política de investimentos efetuados pelo Governo no Serviço Nacional de Saúde, a par de outros a efetuar no próximo ano, nomeadamente, em termos de recursos humanos, de equipamentos e de instalações com a construção de raiz de infraestruturas em alguns casos, enquanto que noutros se verificarão “vultuosas” obras de ampliação e remodelação. Também a Rede Nacional de Cuidados Continuados Integrados, enquanto prioridade igualmente definida, irá contar com mais cinco centenas de camas, sendo que, destas, 289 destinam-se à Região de Saúde do Norte (ARSN).

Assim, com a publicação do referido documento, a Administração Regional de Saúde do Norte, em parceria com o Ministério do Trabalho, Solidariedade e Segurança Social, vai passar a disponibilizar às populações 315 camas de Convalescença, 830 camas de Média Duração e Reabilitação, 1627 camas de Longa Duração e Manutenção, 26 camas de Cuidados Paliativos e 1632 lugares de Equipas de Cuidados Continuados Integrados. Já no âmbito da Pediatria, serão disponibilizadas 10 camas de Cuidados Pediátricos Integrados e 10 lugares de Ambulatório Pediátrico. Enquanto no setor da Saúde Mental, haverá 25 novos lugares em Unidade Socio-Ocupacional, 8 visitas/dia em Equipa de Apoio Domiciliário, 14 lugares Residência Autónoma, 6 lugares em Residência de Treino de Autonomia tipo A – Infância e Adolescência e 10 lugares em Unidade Socio-Ocupacional infância e adolescência.

Assim sendo, a capacidade total instalada passa a ser de 4513 camas, a que corresponde um encargo financeiro anual a rondar os 55 milhões de euros, mais precisamente, 54.528.564,95 euros.

Bruno Mateus Filena
in:diariodetrasosmontes.com

sexta-feira, 29 de dezembro de 2017

A iniciativa “Férias em Movimento”, promovida pelo município de Mogadouro, contou com um dia dedicado à leitura e à culinária

Torre de Moncorvo promoveu o tradicional convívio de natal para todos os seniores das IPSS'S do concelho

Trás-os-Montes sem recolha de lixo há uma semana

Os cinco concelhos da Terra Quente transmontana estão há uma semana sem recolha de lixo.
Em causa uma greve dos trabalhadores que fazem a recolha de resíduos em protesto pela incerteza relativa aos postos de trabalho.
 As autarquias estão já a tentar resolver o problema pelas próprias mãos mas o que é certo é que os moradores estão revoltados com uma situação que pode durar até ao final do ano.

Baixa Hotel é a primeira unidade hoteleira inaugurada no coração do centro histórico

O centro histórico de Bragança ganhou um hotel, o primeiro no coração da cidade, mesmo ao lado da Praça da Sé, a dois passos da rua dos museus, a Abílio Beça, onde está instalado o Centro de Arte Contemporânea e o Museu do Abade de Baçal, próximo do Teatro Municipal, do Castelo e do espaço Polis.
Trata-se do Baixa Hotel, localizado na Travessa da Misericórdia, uma unidade moderna e sofisticada, qualidades que complementa com um tratamento qualificado e personalizado a cada cliente, à boa maneira transmontana.
O Baixa Hotel foi inaugurado esta tarde de sexta-feira e abre ao público no dia 2 de janeiro.
Com projeto de um arquitecto brigantino, Luís Barros, destaca-se o design depurado, minimalista que faz da unidade um espaço confortável e luminoso, com vista para o castelo e a cidadela, pronto a satisfazer diferentes gostos e estilos, modernos ou contemporâneos. O mobiliário é minimalista mas prezam-se os detalhes.  "As linhas do edifício são direitas e simplistas, com uma decoração muito 'clean'. Aliás, é isso que queremos transmitir ao cliente: limpeza, qualidade e sofisticação", descreveu Dina Mesquita, da gerência. 
A unidade, que dispõe de 17 quartos (singles e duplos) e capacidade para 32 pessoas, permite sentir o pulsar da cidade de Bragança, uma das mais antigas do país. Os quartos dispõem de WC, televisão, Internet (wi-fi). "Partiu-se da recuperação de uma antiga residencial mudando a tipologia e o conceito. Aproveitamos este espaço, que está nesta zona da cidade, onde existia uma lacuna no turismo, com a falta de alojamento, que assim fica preenchida", explicou David Gonçalves, da gerência. 

Glória Lopes
in:mdb.pt

Trabalhadores que recolhem o lixo na Terra Quente transmontana dizem que a partir da próxima semana "nem direitos nem emprego”

Depois de vários dias de protesto por terem uma situação profissional indefenida os trabalhadores da recolha de lixo na Terra Quente transmontana já sabem o seu futuro.
Após uma reunião entre a FCC, empresa que termina contrato com a resíduos do Nordeste e a Ferrovial, a nova empresa responsável pela recolha do lixo nos municípios da Terra quente a partir de Segunda-feira, não houve consenso quanto à transferência de trabalhadores.
Ao que a Brigantia apurou junto dos trabalhadores a Ferrovial não aceita a transferência dos trabalhadores. e a FCC, segundo os trabalhadores, garante que a nova empresa é obrigada a aceitar.
Segundo os trabalhadores dizem saber a Ferrovial já tem pessoal para começar na Segunda-feira o trabalho. “E nós nem direitos nem emprego” disse um trabalhador à Brigantia.

Escrito por Brigantia

Auto-Retrato do Abade de Baçal

O Abade com a irmã Cândida e sobrinhos
Luzia e Barnabé em Março de 1934
Tenho 1,74 m de altura; tez morena; olhos castanhos; barba espessa e preta; cabelo preto e crespo; mãos delgadas; dedos compridos; unhas pequenas e bravas. Sou muito peludo por todo o corpo, de musculatura forte; pouco carregado em carnes, tendendo mais para o magro do que para o gordo.
Em 1900 pesava 65 quilos; em 5 de Setembro de 1916 pesei 79 quilos e o mesmo em 22 de Maio de 1934. Em 1903 pesei 76 quilos, 80 em 1909; 82 e 100 gramas em 1927; 80 em 22 de Junho de 1932 na estação de Vilarinho (Tua).
Foi quando tinha 30 anos que me senti pela primeira vez fraquejar. Comecei a usar óculos para ler à noite aos 48 anos e, pouco depois, a menos de um ano, já lhe achava vantagem para ler de noite e de dia. Agora, Agosto de 1917, embora ainda algo possa ler sem óculos com dificuldade, já uso sempre deles, de graduação n.0 24, isto é, quase sem graduação; são apenas de vista cansada. Isto aos 52 anos de idade.
Caiu-me a primeira mó do lado direito de cima, a segunda a contar do dente canino, em Dezembro de 1883, ou seja, aos 18 anos. Caiu aos bocados, pouco a pouco, sem nunca me doer, porque o sangue brotava naturalmente das gengivas e assim desabafavam.
Tive de tirar a ferros a 2.ª mó, por me martirizar com dores durante dois anos, a qual ficava exactamente em correspondência à primeira, mas do lado de baixo, em Janeiro de 1933, ou seja, quando tinha 28 anos. Desta vez as gengivas não deitavam sangue.
Caiu-me a 3.ª mó, sem nunca me doer, a 1 de Setembro de 1911. Era a última do maxilar superior, lado direito.
Caiu-me o dente canino do maxilar inferior, lado esquerdo, sem nunca me doer, a 12 de Agosto de 1917. Desta vez, isto é, desde 1893, as gengivas vinham de tempos a tempos deitando sangue e a este desabafo atribuo a carência de dor. Havia três meses que me começara a abanar.
Guardo numa caixinha os dentes que me vão caindo, apenas faltando dois, porque o primeiro me caiu aos pedaços e o segundo perdeu-se-me na mudança de Mairos para Baçal. Neles escrevo a data em que me caíram.
Caiu-me uma mó do maxilar superior, lado direito, a 20 de Dezembro de 1930. Fica guardada na caixa junto dos outros.
Caiu-me um dente do maxilar inferior a 20.8.1931.
Caiu-me outro dente do maxilar inferior, lado direito, a 25.1.1932.
Caiu-me outro dente do maxilar inferior a 22.4.1933. Ficam todos guardados na caixinha.
Caiu-me uma mó do maxilar inferior, lado esquerdo, a 4 de Outubro de 1934.
Caiu-me um dente incisivo do lado de cima a 24.7.1935, sem nunca me doer. Fica guardado juntamente com os outros.
Caiu-me uma mó do lado direito de cima a 21.10.1936. Fica guardada com os mais.
Caiu-me um dente do lado esquerdo, de cima, a 10 de Fevereiro de 1937. Fica guardado com os mais.
Caiu-me outro dente do lado de cima a 15 de Agosto de 1933 [sic]. Fica guardado com os outros.
Caiu-me outro dente do lado de cima a 19 de Outubro de 1937. Fica guardado com os outros.
Caiu-me outra mó do lado de cima a 4.4.1938. Fica guardada junto dos outros.
Caiu-me outro dente do lado de cima 7.4.1938. Fica guardado junto dos outros.
Caiu-me outra mó do lado de baixo a 15.7.1938.
Já só me ficam dois dentes e meio.
Caiu-me outra mó do lado de baixo a 5.4.1939. Só me fica dente e meio.
Caiu-me outra mó do lado de baixo a 3. 4. 1943.
Caiu-me hoje, 31.1.1946, o que me restava da única mó, de maneira que fico sem dente nenhum nem mó. Fica guardado junto aos outros dentes.
Começou a notar-se-me a careca aos 30 anos; agora, 1917, estou muito calvo e muito mais ruço da barba do que da cabeça. A barba começou a pôr-se-me grisalha antes do que a cabeça.
Desde os 52 anos por diante o cabelo da cabeça parou de me cair.
Em verdade que estas cousas todas conjugadas com os 52 anos feitos, que já tenho, com os 79 quilos de peso, mais 14 em dezasseis anos, do que quando tinha 35, me parecem campainhadas no chocalho da eternidade ferindo os primeiros avisos para sinal de partida e, no entanto, sinto-me bem; apenas tive uma pneumonia aos 17 anos, desde então para cá nada a não ser defluxos, a que sou muito atreito – cinco ou mais por ano à mais leve alteração de temperatura – e me incomodam durante três dias ficando logo bom e com restos de tosse, que à medida da idade se me vai enquistando a ponto de ter sempre agora resquícios dela.
Esta tosse era de fumar, pois desde 1927, até hoje, Julho de 1945, não voltei a fumar e nunca tive tosse.
Também de longe em longe tenho sofrido dores reumáticas de pouca duração. A 9.4.1945 tive ataque de gripe e pneumonia em Sacoias onde ia dizer missa por ser domingo. Estive de cama em casa do Abílio Pires até ao dia 17 em que vim para Baçal a pé, já bom de saúde.
De alimento tudo me serve e me faz bem, tenho magnífico estômago. Os intestinos é que um pouco ruins, atreitos a hemorróidas.
Como pouco, sobretudo carnes, se bem junto com outros, mais animado, talvez me exceda; prefiro vegetais, legumes e frutas; azeite, peixe gorduroso.
Ando sempre a pé, tanto para o serviço da freguesia, como para as funções eclesiásticas, embora distantes – uma e duas léguas –, e para o Museu Regional de Bragança, onde vou todas as semanas desde 1925, em que fui nomeado director, até 9.4.1935, em que deixei o cargo por ter atingido o limite de idade – setenta anos.
Tenho vida activa pois, além do muito que estudo e leio, trato, por distracção, das hortas, sachando-as, mondando, regando, estacando as vinhas, podando, e de outros pequenos serviços – plantação e limpa, enxertia, viveiros de árvores, etc., etc., não esquecendo as flores, de que muito gosto.
Segundo cálculos muito aproximados que vão exarados no fólio 107, desde 9 de Abril de 1865, em que nasci, até 9 de Abril de 1947, ou seja ao completar 82 anos de idade, tenho andado a pé 32 211 léguas de cinco quilómetros cada uma, ou sejam, 161 055 quilómetros. Ver fólio 107.
Só bebo vinho no tempo frio de inverno e primavera e quase nunca no verão, a não ser animado em algum jantar, na companhia de amigos, de maneira que passo os sete meses de mais ou menos inverno bebendo só vinho e nunca água e o contrário ou quase nos cinco restantes.
Comecei a beber vinho aos 28 anos, até então, posto que não me provocasse náusea, não o podia sofrer, nem alimento algum com ele preparado, como salpicões, chouriças, etc., no entanto, bebia aguardente, embora pouca, vinho fino, e sabiam-me bem.
Depois que comecei a beber vinho, isto é, depois dos 28 anos, deixei de beber aguardente por achar detestável de sabor, e usei com algum excesso de bebidas brancas – anis, cognac, genebra, vinho fino, rum, absinto, se bem que nunca me embriaguei.
Depois larguei pouco a pouco essas bebidas, além de outros danos provocavam o hemorroidal – bebo vinho, mas só de inverno, e nunca vinho fino, e nas manhãs de inverno e, de quando em quando, nas de verão, mato o bicho com aguardente bagaceira, fraca.
Pelos anos de 1920, ou seja, aos 55 anos, principiei a sofrer da bexiga, necessidade de urinar constantemente e pouco de cada vez; atribuí à aguardente, que já bebia não só de manhã mas pelo dia acima, embora pouca, e depois de comer. Deixei-a completamente e hoje nem vê-la.
Fumo muito cigarro e também charutos, que aprecio, mas não engulo o fumo. Deixei de fumar em 1927 por causa da tosse e realmente desapareceu-me. Até hoje, 3.6.1934, não mais voltei a fumar, nem tenciono. Tomo rapé, de tabaco moído, e acho que me faz bem, apesar de ser mui sebento, ou por isso mesmo. Desde que tomo rapé cessaram os defluxos.
Tomava muito café – espevitava-me o espírito e expulsava-me a modorrice dos sentidos para estudar, mas a Grande Guerra, desencadeada em 1914, dificultou por tal forma a vinda dos géneros coloniais e do estrangeiro, que chegou a faltar açúcar em Bragança por algum tempo, o que me levou a deixar o café e hoje (1917) já nada sinto a sua falta.
Voltei a tomar café em 1925 e suspendi em Maio de 1934 por causa do nervoso que muito me impede de escrever.
Desde 1936 tomo leite, quase um litro por dia. Anteriormente não o tomava por me encerrar os intestinos e agora ainda algo, mas pouco; basta deixar de o tomar um dia para continuar regularmente.
Aos 71 1/2 anos deixei de ter força para expelir a urina e agora cai só pela força da gravidade, de maneira que, se não me escanchar, mijo nas calças e nos sapatos.
Também na mesma idade, isto é, aos setenta e um anos e meio, comecei a sentir a falta de ouvir e a cansar-me ao andar.
A 22 de Outubro de 1945 fui ó Porto consultar o Dr. Joaquim José Cardoso, rua da Alegria, 541, especialista de doenças de ouvidos. Examinando-me disse que para a idade que tinha (81 anos incompletos, a completarem-se dia 9 de Abril de 1946) ouvia bastante e segui o seu conselho, indo, todavia, a casa de um que tinha aparelhos modernos, que concordou com o dizer do médico, pois nada adiantava na audição com os aparelhos que me pôs na cabeça para ouvir melhor.
Na altura que fui ao Porto agravou-se-me um golpe na cara ao fazer a barba e esteve mais de dois meses sem cicatrizar, purgando algo e, por esta purgação ou não sei porquê, desapareceram-me do canto esquerdo da testa as manchas pretas, índices da arteriosclerose que há anos tinha.

Memórias Arqueológico-Históricas do Distrito de Bragança

GEADA 2017 | Miranda do Douro | 28 a 31 de Dezembro

Pelo quinto ano consecutivo, encontro acontece em Mogadouro e celebra a cultura e a tradição das máscaras em Trás-os-Montes

FESTA DE FIM DE ANO - Vila Flor

Cantar dos Reis em Vimioso

Quase poema... ou dos rebanhos e da política

Por: Fernando Calado
(colaborador do Memórias...e outras coisas...)
Se fosse do rebanho pouco se me dava. Os pássaros que cantassem e fizessem os ninhos nos ramos altaneiros e contemplassem as paisagens mais deslumbrantes. O verde dos campos que fosse verde… os peixes em cardume que descobrissem os segredos da profundidade do rio, ou ficassem somente ao sol nos remansos tranquilos…as rosas, essas que se cansassem todos os anos de ser rosa e rosas e perfume…eu seria do rebanho… Tranquilo…sendo levado para os prados cheio de flores e à tarde iria beber água fresca no leito do ribeiro que canta há milhares de anos. Nem um desgosto!... O pastor seria o caminho seguro… o pensamento… e a ameaça do lobo seria a unidade do rebanho. 
… e assim estaria tudo bem! E até os cães do gado que até podiam morder…ladrar… se calam para que a côdea do pão duro não falte no bornal sebento do pastor. 
Claro que no final do Verão teria que sofrer as grandes secas… os prados cinzentos de terra dura… comida pouca… mas o pastor lá estaria para manter o gado unido… Ele sabe que metade das ovelhas vão morrer de fome…de sede… e de doenças…muitas… Mas só é preciso esperar… logo o prado será verde… a água fresca…não se sabe quando… mas será… e o rebanho adormecido… cala-se… deixa de balir…e morre e o pastor já nem se importa…
…que rebanho é este…até tem medo de morrer!… Diz o pastor. Na verdade poucas ovelhas chagarão à próxima primavera… mas que raio… que se há de fazer?!
Nada… não se faz nada… o melhor é ficar no rebanho… é o melhor… sem a maçada de dizer não… sem o incómodo do pensamento… sem a estranheza apocalíptica da ovelha morder o pescoço do cão.
…ficar… balindo… balindo… e não fazer mais nada!
O pastor é que gosta de um rebanho assim… amigo do seu pastor… manso… com medo do lobo!
… Se fosse do rebanho pouco se me dava! Mas… um dia, há milhares de anos, um sapiens sapiens assustou-se com a novidade do pensamento…e a maldição começou… perdemos o rebanho… ganhamos a revolução… perdemos o paraíso… ganhamos a humanidade… e agora já não podemos ser do rebanho… conquistamos o dom da divindade… inventamos a filosofia e todos os dias acordamos na intranquilidade do pensamento.
Platão anda por perto… e cedo abandonou o rebanho… e ao pastor... disse não… e disse:
“ “O preço a pagar pela tua não participação na política é seres governado por quem é inferior”
…e disse! E o rebanho passa… só a balir… e não faz nada!

Fernando Calado nasceu em 1951, em Milhão, Bragança. É licenciado em Filosofia pela Universidade do Porto e foi professor de Filosofia na Escola Secundária Abade de Baçal em Bragança. Curriculares do doutoramento na Universidade de Valladolid. Foi ainda professor na Escola Superior de Saúde de Bragança e no Instituto Jean Piaget de Macedo de Cavaleiros. Exerceu os cargos de Delegado dos Assuntos Consulares, Coordenador do Centro da Área Educativa e de Diretor do Centro de Formação Profissional do IEFP em Bragança. 
Publicou com assiduidade artigos de opinião e literários em vários Jornais. Foi diretor da revista cultural e etnográfica “Amigos de Bragança”.

O rebusco!...

Não tenho dúvidas que, por mais apedeuta que seja, qualquer pessoa conhecerá, não só a palavra, como também o significado de rebusco, nomeadamente no meio rural. Atrevo-me, até, a dizer que, em tempos não muito distantes, o rebusco era uma tradição instituída que, os mais pobres, desfavorecidos, ou pessoas que tinham tempo e faziam pela vida, praticavam com bastante regularidade.
Ir ao rebusco era, simplesmente, apanhar os restos que ficavam após as colheitas agrícolas, da azeitona, das batatas, das castanhas, das vindimas, etc. Nos meus tempos de criança, havia famílias cuja sobrevivência dependia, em boa parte, da prática do rebusco. Mesmo até no que toca à recolha de lenha para a lareira, recordo-me, por exemplo, de ver pessoas a extraírem dos troncos junto às raízes das árvores, que ficaram após os cortes, alguns cavacos para a lareira. Pouco era desperdiçado, pelo que quase nada era desaproveitado, sustentando um positivo resultado.
Nesta perspetiva dou, por vezes, comigo a pensar o quanto a vida mudou, como tanta coisa se alterou e como tanta necessidade nos desassombrou. Ou será que também o comodismo imperou?!... A ideia de aproveitar, arrecadar ou poupar, parece ser, nos tempos que correm, olhada de outra forma, com diferente tranquilidade.
Quando, há dias, andei à azeitona, observando o contexto como agora se procede a esta colheita, vieram-me à lembrança os tempos em que o rebusco era uma tarefa exercida com entrega e afinco. Isto porque, ao contrário do que atualmente acontece, sobretudo decorrente da mecanização, antigamente, a faina da azeitona implicava não deixar nenhuma, que se visse, por recolher, quer da oliveira, quer do chão, mesmo quando estava gelado, ou encharcado.
Que satisfação evidenciariam as pessoas que andavam ao rebusco se, nesses tempos de “penúria”, encontrassem, nos olivais, a quantidade de azeitona que hoje fica por lá. É que havia famílias que faziam azeite para o consumo próprio, só com a azeitona que apanhavam ao rebusco, chegando, até, a vender alguma.
Obviamente que não tenho nenhuma saudade desses tempos, até porque eram penosos e de grande sacrifício, mesmo para quem não tinha necessidade de ir ao rebusco. Todavia, também entendo que, ainda hoje, o rebusco, poderia, muito bem, ser “ressuscitado” e exercitado por pessoas ou famílias com dificuldades no domínio da ocupação laboral e económica, aproveitando o tempo e os recursos de forma produtiva. Estou convencido que, se tivesse necessidade, não teria qualquer problema em ir ao rebusco. Seria uma forma útil de valorizar o tempo livre, a mim próprio e o conceito de vida na essência da independência, dignificação do trabalho e aproveitamento de recursos naturais disponíveis.  
Tendo em conta a implementação da mecanização na vareja e apanha da azeitona, ficando nos olivais muitas toneladas de azeitona sem qualquer aproveitamento, não tenho dúvidas que o rebusco seria uma tarefa a ter em conta por quem tem necessidades ao nível económico e alimentar, e revela capacidades físicas para laborar e muita disponibilidade de tempo para ocupar.


Nuno Pires
in:mdb.pt

Corte nas verbas atribuídas à Associação Humanitária dos Bombeiros Voluntários de Macedo de Cavaleiros

O Município de Macedo de Cavaleiros cortou em 25.000€ na verba atribuída anualmente à Associação Humanitária dos Bombeiros Voluntários de Macedo de Cavaleiros.
Situação discutida na Assembleia Geral dos Bombeiros na apresentação do Plano de Atividades e Orçamento para 2018.

Uma surpresa para António Batista, presidente da Associação, que admite, que contava com um aumento na verba e nunca com uma diminuição como tem vindo a acontecer.

“Eu estranhei muito e fiquei muito revoltado com a redução substancial na verba que nos foi atribuída. Estava longe de pensar que em vez de me diminuírem que me iam aumentar na verba. Esta instituição em termos de subsídios da Câmara estamos a receber menos 60 mil euros, então como é que mantenho o pessoal com estes cortes? São menos cinco mil euros a menos por ano. Esta instituição não se compadece com estas reduções, ou querem aqui os Bombeiros e mantemos o pessoal, que é uma necessidade e ainda era necessário meter mais pessoal. É uma necessidade, mas não o conseguimos com estes apoios.”

O corte nas verbas que impede a contratação de pessoal necessário na equipa e que pode pôr em risco a Associação.

“Não há verbas, não se pode fazer omeletes sem ovos e digo que vai ser muito difícil aguentar esta instituição, está em risco. Se a autarquia manter os 75 mil euros, se não fizer os orçamentos retificativos e repuser as verbas que realmente nós nos sentimos com “direito a elas”, não temos hipótese; não há nenhuma Direção que consiga aguentar isto. Só tínhamos outra hipótese que era despedir pessoal, mas se nós precisamos de pessoal como é que o vamos demitir?”

O presidente António Batista que chega a pôr em causa o seu lugar na Direção por não conseguir sustentar a situação em que estes cortes do Município deixam a Associação dos Bombeiros.

“Nós precisamos de ter um socorro rápido, eficaz e que dê garantias de segurança à população. Mas para isso é necessário que a autarquia dê valor à instituição dos Bombeiros e que perceba que não é reduzindo verbas que está a ajudar. Assim põem em causa esta instituição. 
Vou refletir muito bem se continuo ou não, se continuo ainda este ano. Daqui a um ano há eleições mas eu vou refletir se estou interessado em continuar ainda este ano. Não há hipótese.”
O orçamento para 2018 foi aprovado na referida Assembleia por maioria com uma abstenção.

Escrito por ONDA LIVRE

AGUIEIRAS - Freguesias do Concelho de Mirandela

Chairos - Aguieiras
AGUIEIRAS é o nome da freguesia mais afastada da sede do concelho de Mirandela a que pertence. Fica a quase trinta quilómetros de distância. Enquanto que, para a Torre de D. Chama são apenas 8! O seu nome deriva de águia, ave abundante nas Serras de Portugal. É constituída por vários aglomerados populacionais, pequenas aldeias, todas próximas umas das outras, e agora ainda mais com o dispersar das habitações que modernamente se gostam de construir com seus terrenos agrícolas em volta. 
São elas, e por ordem quando se circula na estrada Bouça/Vinhais: Pádua Freixo, Ervideira, Casario, Fonte Maria Gins, Soutilha, Chairos, Aguieira e Cimo de Vila. Todas elas se estendem por uma vasta zona planáltica, em encostas de pequenas elevações, no meio da paisagem circundante com altas montanhas e vales fundos em relação à freguesia.
Pela estrada fora, muitas rochas graníticas arredondadas pela erosão do vento e da chuva, parecem ter sido colocadas como peças de museu no meio das parcelas de hortas bem divididas. Muitas casas de campo, já entradas na idade, ajudam a dar sentido e gosto à paisagem.
Muito perto do limite do concelho de Vinhais, as gentes de Aguieiras são receptivas e ornamentam seus campos com culturas hortícolas, mas também cultivam várias árvores, destacando se as cerejeiras e nogueiras.
A actividade essencial em toda a freguesia é a agricultura. Já em 1960 se registavam, num anuário, 20 proprietários abastados, 4 mercearias e 2 professoras. Em 1950 havia na freguesia 875 habitantes, e em 1991 eram 499 os residentes.
No Censo de 2001 havia 374 pessoas, das quais 181 eram homens.
Chairos, lá mais para a fronteira com o vizinho concelho da Terra Fria, fica logo junto à estrada e dá passagem para Aguieira e Cimo de Vila. Em Chairos, devemos indicar a Capela da Sr.ª do Monte onde a Festa por volta de 14 de Agosto é muito concorrida. Dois cafés, a Casa do Povo à entrada, com Posto médico e onde a Junta de Freguesia trabalha por vezes. A Escola Primária e o Largo da Capela. As habitações confundem se no meio dos terrenos de cultivo e das latadas de videiras junto a elas ou aos muros. Logo a seguir há uma pequena subida onde há interrupção de habitações para dar lugar às hortas, e entrase no Largo da Liberdade noutro povoado: a Aguieira. Antes, está uma casa rural bem típica em pedra com dois andares e varanda, e, ao lado, outra mais baixa e térrea com o telhado inclinado de uma só água, e que mostra a data de 1899. Um aglomerado apertado de pouco mais de duas dezenas e meia de casas já muito usadas, muitas vazias e até abandonadas. Dão passagem para o Cimo de Vila com dois moradores e as casas sem ninguém.
Regressando à estrada nacional, vale a pena ir visitar as outras aldeias da freguesia de Aguieiras, pois todas têm a sua particularidade e identidade própria. No entanto, é obrigatório ir até Soutilha, já que é esta a povoação principal. À entrada, depois de passar o Cruzeiro e o cemitério, fica a linda Igreja rústica, com o seu adro. Obriga nos a parar Com efeito, exterior e interiormente, é um monumento de rara beleza pelo conjunto que encerra. No seu interior, as Pias de água benta e baptismal, a talha dourada dos altares e o chão em lajes graníticas, dãonos um carácter de antiguidade e respeito pelo passado local. Por fora, todo o frontal é agradável de se observar, em granito, Torre Sineira central com dois sinos, pináculos laterais, e portal aberto com leves florões. Tem a data de 1729 no meio de uma inscrição na pedra.
Defronte da Igreja e da Porta principal, tendo o adro no meio, está o Portal da Capela de Santa Catarina, mudado do Cabo da povoação para ali. É por lá que se entra no edifício. Esta Capela era particular, da família dos Andrades, ficava lá no Cabo da Aldeia, para Oeste, e foi destruída há cerca de 19 anos, passando as suas pedras principais e ornamentadas, assim como alguns objectos, para a frente da Igreja. No lugar da Capela, foi feito um largo. Para ir ali, passa se pelo Largo Armindo Andrade e pela Rua de Santa Catarina. As habitações dispõem se lateralmente, num amontoado leve e com transmontanismo evidente. O Forno do Concelho fica lá no fim do Povo, e todos lá podem ir cozer o Pão sem nada pagarem. No Largo Armindo Andrade, havia um lagar de azeite que foi desfeito, e os terrenos onde se implantava serviram para construir a Escola Primária. Ali funciona igualmente a pré primária.

Naquele Largo é que se costumam reunir as pessoas para se distraírem, lerem o placar oficial de informações autárquicas, ou acertarem as suas vidas nos momentos de descanso e lazer. Junto da Igreja está a Casa da Junta de Freguesia e um espaço alargado com fontanário e nicho em azulejo. A Fonte de mergulho, de abundante água, situa-se na subida para o Centro da povoação.
A festa principal é em honra de Santa Bárbara, nas imediações da Igreja, e realiza se no 1.° Domingo de Agosto.

In III volume do Dicionário dos mais ilustres Trasmontanos e Alto Durienses,
coordenado por Barroso da Fonte.