domingo, 31 de dezembro de 2017

Ausências (Ficção)

Por: Fernando Calado
(colaborador do "Memórias...e outras coisas...")
A noite estava quente, mas os dois velhos gostavam de ter o lume acesso naquela moleza de quem faz horas para se ir deitar.
- Tivemos uma vida boa!
Dizia o velho para a sua mulher, sentada ao canto do lume, com aquele ar meigo de quem amou até ao infinito e gastou os olhos de tanto olhar para o seu homem.
E a conversa arrastava-se num dizer por dizer, como se as palavras tivessem a magia de adoçar a vida cheia de recordações, de alegrias e de tristezas.
- Tu deves ouvir sempre o que eu te digo, mulher, porque eu tenho duas escolas, a escola primária e a escola da vida...Tu só tens a escola da vida!
Então a velha queixava-se de não saber ler as cartas e os postais que se perdem caídos pelos quatro cantos da casa.
- Tens que ter resignação mulher, como eu que já quase não vejo nada!
- Pois é, coitadinho, já quase não vês!
- Chega de conversa, por hoje...só eu é que devo falar das minhas desgraças!
- Pronto, ficas logo áspero...
Diz a velha sem rancor, na maior serenidade.
- Então quem telefonou hoje?!
Pergunta o velho...sabendo ele que os filhos telefonam sempre ao anoitecer, mas pergunta, naquele alegria íntima de ouvir a mulher dizer o nome dos filhos.
- O nosso João continua na política?!
Perguntou o velho...escondendo a vaidade, pois ele era um amante da democracia, censurando os invejosos que hão-de falar sempre mal de quem trabalha pela educação, pela saúde e pelos velhos.
- Aquele rapaz...com o cursinho dele não precisava nada destas coisas da política...que só trazem desgostos e inimizades...Eu bem o avisei!
Pois é, a mãe bem o tinha avisado que não se metesse na política, mas quê o rapaz trazia no sangue aquele fulgor do seu avô, velho republicano, um homem honrado e são como um pêro, que combateu o Franco e ajudou, a vida toda, os espanhóis que se refugiavam no sossego do Nordeste Transmontano fugindo ao negrume da Guerra Civil.
E a mãe morria de tristeza por causa daquele filho...tinha tantos inimigos o seu menino...Antes de se meter nestas coisas da política, toda a gente lhe queria bem, regressava a casa cedo vindo do seu emprego, saía com a sua namorada e tinha uma vida tão boa...Agora, é este desassossego, esta corrida constante para o Partido, para as reuniões, é este medo desenhado no seu rosto e que a mãe conhece desde pequenino.
- Mas também quem fala mal do nosso rapaz?
Dizia o velho que sem a resposta da sua velha, respondia ele:
- Um, é um vigarista refinado que pára ali pela tasca da viela...fala mal de meio mundo...ri-se muito...tem muita laracha, mas se um homem não acautela a carteira está bem arranjado...Gente de respeito...não conheço nenhum!
Mas a mãe não se resignava e achava que o seu homem também estava muito triste e havia de morrer com aquele desgosto de ver o filho a ser enxovalhado por gente que não vale duas coroas.
- O nosso rapaz anda meio doente!
Teimava a mãe, como quem sabe que a política traz consigo a inveja, o ódio e o prenúncio de todos os males.
- O nosso rapaz é um bom homem...
Dizia o velho reconfortado.
- Pois é...Só é mau para ele...
Dizia a mãe enquanto afagava um sorriso longínquo, lembrando-se de tanta gente a quem o filho ajudou a conseguir emprego, da alegria de meio mundo que encontram no seu filho a disponibilidade de quem está ao serviço dos outros e faz política discretamente...sem se ver...sem traições...nem arranjos calculados na penumbra da vilania.
- Vamos à cama!
Diz o velho como quem cumpriu um dever de esclarecer a sua velha das coisas da vida, pois ele tinha obrigação de o fazer porque num tempo antiquíssimo tinha frequentado a escola primária...e ao longo da vida, fez a magnífica escola de conhecer, primorosamente, as fragilidade da natureza humana.


Fernando Calado nasceu em 1951, em Milhão, Bragança. É licenciado em Filosofia pela Universidade do Porto e foi professor de Filosofia na Escola Secundária Abade de Baçal em Bragança. Curriculares do doutoramento na Universidade de Valladolid. Foi ainda professor na Escola Superior de Saúde de Bragança e no Instituto Jean Piaget de Macedo de Cavaleiros. Exerceu os cargos de Delegado dos Assuntos Consulares, Coordenador do Centro da Área Educativa e de Diretor do Centro de Formação Profissional do IEFP em Bragança. 
Publicou com assiduidade artigos de opinião e literários em vários Jornais. Foi diretor da revista cultural e etnográfica “Amigos de Bragança”. 

1 comentário:

Daniel disse...

Ausências ficção!!!!
Uma história muito bem contada. Comovente pelo envolvimento afeactivo de um casal e que nos traz recordações de longos serões que em tempos idos tinhamos com os nossos avós.
Ua história com uma grande lição!!! A política, que com as suas práticas, o lamaçal em que se meteu, não deixa margem para darmos o beneficio da dúvida a quem a possa fazer com o sentido de Estado.